19 outubro 2026

GRAVE NÃO É EXISTIR; É NÃO SER FELIZ


Deus existir é um absurdo. Não é o absurdo no sentido de irrealizável ou muito improvável. É absurdo no sentido de milagre. A existência de Deus tem o carácter de milagre, improbabilidade mágica. Mas, se não existisse, não estaríamos aqui a conjecturar o como da sua existência. É um absurdo ao quadrado. O real não engana; mas, se por detrás de cada evento que parece acontecer por acaso, existir uma causa e um plano genioso, será que podemos suspender o absurdo da existência de Deus? Deus criou o homem porque estava farto de rolar a pedra montanha acima? E se formos nós essa pedra? Estas perguntas são legítimas, mas só se legitimam caso o homem tenha uma finalidade que passe pela felicidade absoluta. Assim eu acredito. Acredito num Deus que ri, dança e é feliz. O absurdo da situação (a realidade não engana) passa ao esquecimento perante a potência dessa felicidade última que Deus é. Fora destes parâmetros, nada mais faz sentido. Nós viemos a existir para ser felizes. Mas Deus prova-nos, pedindo-nos a esperança nele, que tudo poderia ser, ao invés, absurdo. Desolado, sem fim, sentido ou gravidade.


13 outubro 2026

PELO SÉCULO INSEGURO E PERENE ADENTRO


Leio, por vias travessas, esta frase de Primo Levi [que aparece num ensaio seu intitulado «Sobre a Escrita Obscura»]:


Não é verdade que para descrever desordem seja necessária desordem; não é verdade que o caos na página escrita seja o melhor símbolo do extremo caos a que estamos destinados: considero isso um erro característico do nosso século inseguro.

O que me prende de imediato é o adjectivo usado: inseguro. Primo Levi viveu o século XX quase na íntegra, e, claro, a sua insegurança, o seu ruído e caos, da forma mais extrema. O que me importa agora, porém, não é versar sobre a biografia de Primo Levi, sobre a experiência definitiva e dolorosa em Auschwitz, ou as suas qualidades enquanto escritor tardiamente reconhecido. 

Interessa-me o adjectivo porque acho um resumo ineficaz da alma humana, e da arte, moderna - uma sendo êmbolo da outra. A aparência da alma hodierna certamente é fragmentada, caótica, em desordem psíquica, porque é a mesma que vem do tenebroso século que Primo Levi testemunhou, e com quantas revoluções históricas na sua carga. A alma do artista moderno carrega o símbolo invertido da memória utópica divinizante, em que ser experimental, obscuro e sofisticado é condição sine qua non para a sua prática. O artista de hoje não faz relatórios, de resto, a grelha por onde Se Isto é um Homem se guiou. A arte moderna tem como prerrogativa essencial ser contra descritivismos; tem de relacionar a evidência existencial, imprevisível e fonte de dor (que vem dos séculos), com o composto desse mesmo desconforto físico. A arte moderna não é insegura. É necessária, brutal, teutónica, mas nunca um bibelô artificial expelido pela alma.


27 setembro 2026

carrossel.


Em resumo, em resumo, foi assim o meu fim-de-semana cultural: no Sábado à noite fui ver uma peça de teatro, hoje, ver o novo filme de Almodóvar.

Sobre a peça: entre os equívocos e fraudes da arte moderna, «Arte» de Yasmina Reza, torna-se um exercício brilhante de "desconstrução" de uma amizade a três. Gostei muito.

Sobre o filme: para mim, o piorzinho Almodóvar recente que tenho visto. Filme onde perpassa um fio brutal de tristeza, mas daquela macambúzia mesmo. E desinspirado até ao tutano: 85 % dos diálogos são do tipo: 'oh, sim, estou bem, estou a apanhar ar'. Não pode ser mais contrário ao que penso do filme dentro do filme. Uma desilusão. 

02 agosto 2026

sentir apenas.


É um filme muito simpático. Sem pretensiosismos de nenhuma espécie se fez um filme, e retrato, sólido. A estreia [em longa-metragem] de Sarah Friedland, que anda por cá nas salas, dá-nos uma imagem humana e naturalista, sem odisseias macabras ou desesperadas, da velhice, através da vida de Ruth, uma octogenária que se vê enlaçada na doença de Alzheimer. Familiar Touch é o trabalho paciente - que espera "todo o tempo do mundo" para ver acontecer - e quase informal da câmara de Friedland que encontra uma actuação Soberba de Kathleen Chalfant (a melhor que vi este ano, em estreias), a Ruth. O filme, na sua forma de dizer inaudivelmente os íntimos daquela mulher afectada pela doença, aprende a viver de novo, e é recíproco em relação a Ruth e sua família; o estruturar de toda a fauna visual naquela casa de repouso sénior americana liga-se, de modo tácito, aos gestos e aos toques humanos, sempre felizes - não há sinais de tragédia nas variações do rosto de Ruth ao longo do filme e nas suas ações; talvez um pouco de frustração, mas aceitação também. 

Trailer


29 julho 2026

onde há fumo, há fogo.

Não é novidade nenhuma, nem original: vou preparar um texto a que darei o título «Como deixei de ser ateu» ou «Porque não sou ateu», já que o outro escreveu o Porque não sou Cristão. Sem ligação directa. Apetece-me reflectir sobre a minha passagem. E experiência.

18 julho 2026

Within


Contra todas as previsões, está aqui «Within» (2026), novo disco de originais dos Protest The Hero, aquela banda que, por alturas do «Kezia» (2006) e do «Fortress» (2008), era, e digo-o sem hesitar, a melhor banda heavy metal do mundo. A banda lida sempre, desde aí, com rumores de que "acabaram", sendo pioneiros no desbravamento de novas formas de se relacionar com os fãs e a indústria musical. Mas não acabaram, e para «Within», os fãs podem contar com um trabalho intrincado, denso e rápido como sempre, depois de algumas experiências menos empolgantes. Com marca de identidade forte, as composições de «Within» são repentistas e explosivas, aquela anarquia ordenada e progressiva deliciosa que só os PTH possuem, com a banda a flertar com o rap em algumas delas, além de arranjos orquestrais integrais para outras. Uma boa adição ao catálogo. No vídeo pode-se ouvir o álbum na íntegra, publicado pela própria banda.


12 julho 2026

o exacto lugar.

 


leituras.


Cheguei a um bom equilíbrio nas minhas leituras: leio dois romances ao mesmo tempo, intercalando, se me apeteça, um livro de contos ou poesia. Antes, iniciava quatrocentos livros e levava poucos até ao fim, tinha de reiniciar leituras, enfim.

Agora estou a ler um Lobo Antunes (O Esplendor de Portugal) e Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H.), intercalando, claro, com contos: de Cortázar, um mestre.

Antes disto, um dos que li foi o 1984, o velho clássico de Orwell. Sim, tive de chegar aos 38 anos para ler o 1984! Estava numa estante há anos, apertado entre livros de Vergílio Ferreira... Gostei. Mas só gostei. Creio que é um excelente ensaio, mas um romance só satisfatório, ou menos. Eu gosto é do trabalho sobre a linguagem, não há volta a dar... este poeta que há em mim... um romance que me preencha tem de conter muita poesia dentro, não é só tese, ou pior, estrutura. 

...E aquelas descrições da tortura contra o Winston são puro sadismo. Podia ter sido feito de forma diferente.

07 julho 2026

escrever é dor.


Lá no fundo, e no fim - que é início -, eu não tenho nenhum tema, ir por onde, uma vaga ideia do que seja. Tenho botas em Março, o senhor Bartleby, um zoo, Hakkinen campeão de Formula 1. É evidente que o livro situar-se-ia algures na década de 1990. Mais do que estas palavras soltas e com pouco sentido, não tenho. Quero lançar-me à prosa e não sei se devo ser interventivo, político, se crio o meu mito e a minha tese desligada do tempo presente, que é um perpétuo desvanecer. Já espero há demasiado tempo as condições perfeitas, a maturação ideal, para escrever. Sou parvo e sei que um estado ideal, utópico, beatífico e tudo o mais que se lhe queira chamar, é antes um caminho tortuoso pela oficina. Pelo trabalho, pela insónia. Perfeito, até no Paraíso, é subjectivo. Não tenho uma primeira frase sonante, que destrave o livro e o sonhe enquanto apanho o néctar, onírico pois, da noite. Nem um avatar, nem a qualidade geniosa de me encerrar dentro da cabeça dos personagens e fazer parecer tudo verossímil, quando falam. Ter passado imenso tempo calado só me deu qualidade poética. Um rosto limítrofe, um anti-intervir que é quase condição sine qua non. Vivi demasiado nas margens, num exílio em que preferi as ervas rastejantes e o comedouro dos cães. Tenho este lado, de que não prescindo, e me ensinou a ver ao longe. A sofrer por nada. A carregar a culpa do universo todo. Mas a mão tem de ser e estar feliz para escrever. A melancolia pura tem pavio curto. Descrevê-la e dar-lhe um rosto pode ser mágico, mas a mão tem de estar animada para falar da tristeza, da solidão, do inferno e do nosso universo que, não sei se sabem, roda à volta de outro universo: onde estão os deuses.

23 junho 2026

paisagem quase no fim.



rápido é o silêncio,
brevíssima a sombra
destes cães que se transportam
ao rio para beber o meu pensamento.

o sol trespassa,
a árvore inclina
neste vento que ordena
ao meu ouvido o caos doce e simples

do que sinto.

 

25 abril 2026

what's in a name?


Jon Fosse, desde que o li, tornou-se um dos meus contemporâneos estrangeiros favoritos. E a reputação do prémio Nobel enquanto prémio literário também incrementou com o seu nome entre os laureados. É sempre assim com os bons escritores: não é o prémio que lhes aumenta o prestígio pessoal, é precisamente o caminho inverso. E ontem fui ver uma peça de teatro de Fosse em estreia. O Nome [1995]. Gostei bastante. Apesar de existirem por ali umas adaptações técnicas meio foleiras, o texto e estética muito particulares de Fosse fazem esquecer essas coisinhas.

08 março 2026

à volta da fuga que é encontro.

Um escritor não é o que quer ser, é, antes, tudo aquilo de que foge. Quando escreve, a sua ressoada originalidade é procurar um meio de ser ainda mais original. E para isso tem de fugir de tudo o que já leu, tem de fugir de si e da sua história.

15 fevereiro 2026

Tabacaria Aplicada

Não vendo nada.
Nunca venderei nada.
Mas pelo menos sou livre e corajoso.

24 dezembro 2025


Deserto. Óleo. Cada palavra um romance. Alugo 
prazer e frutos recolhidos
sem remorso na hora de os mastigar.

O papagaio e a noite perdem-se na noite.
Escrevo o repouso da minha cabeça em ti mesma
esperando o Sol chegar
e atravessar o janelão até ao universo de ácaros
e casebres volteados na consciência. Este sou
e a linguagem despovoada é o saboroso
filho do nosso corpo.

21 dezembro 2025

vão ao cinema.

Uma lista dos meus filmes favoritos em sala, 2025

«Sob a Chama da Candeia», André Gil Mata
«L'Empire», Bruno Dumont
«The Seed of The Sacred Fig», Mohammad Rasoulof
«L'Histoire de Souleymane», Boris Lojkine
«It Was Just an Accident», Jafar Panahi
«A Traveler's Needs», Hong Sang-soo

Uma lista de favoritos no sofá

«The Holdovers», Alexander Payne, 2023
«Frágil Como o Mundo», Rita Azevedo Gomes, 2001
«A Simple Plan», Sam Raimi, 1998
«Sing Sing», Greg Kwedar, 2023
«Burning Days», Emin Alper, 2022
«Barbe Bleue», Catherine Breillat, 2009
«Trenque Lauquen», Laura Citarella, 2022
«Jeux Interdits», René Clément, 1952
«Suddenly, Last Summer», Joseph L. Mankiewicz, 1959
«To Be or Not to Be», Ernst Lubitsch, 1942
«The Swallows of Kabul», Zabou Breitman/Eléa Gobbé-Mévellec, 2019
«A Pedra Sonha Dar Flor», Rodrigo Areias, 2024
«The Ice Storm», Ang Lee, 1997

Podia continuar, mas está aqui um bom resumo.