Deus existir é um absurdo. Não é o absurdo no sentido de irrealizável ou muito improvável. É absurdo no sentido de milagre. A existência de Deus tem o carácter de milagre, improbabilidade mágica. Mas, se não existisse, não estaríamos aqui a conjecturar o como da sua existência. É um absurdo ao quadrado. O real não engana; mas, se por detrás de cada evento que parece acontecer por acaso, existir uma causa e um plano genioso, será que podemos suspender o absurdo da existência de Deus? Deus criou o homem porque estava farto de rolar a pedra montanha acima? E se formos nós essa pedra? Estas perguntas são legítimas, mas só se legitimam caso o homem tenha uma finalidade que passe pela felicidade absoluta. Assim eu acredito. Acredito num Deus que ri, dança e é feliz. O absurdo da situação (a realidade não engana) passa ao esquecimento perante a potência dessa felicidade última que Deus é. Fora destes parâmetros, nada mais faz sentido. Nós viemos a existir para ser felizes. Mas Deus prova-nos, pedindo-nos a esperança nele, que tudo poderia ser, ao invés, absurdo. Desolado, sem fim, sentido ou gravidade.
imprecisões
Da Tristeza Que Advém Da Polenta. (Leonardo Continuous Ostinato de Post Traseiro Vinci)
19 outubro 2026
13 outubro 2026
PELO SÉCULO INSEGURO E PERENE ADENTRO
Leio, por vias travessas, esta frase de Primo Levi [que aparece num ensaio seu intitulado «Sobre a Escrita Obscura»]:
Não é verdade que para descrever desordem seja necessária desordem; não é verdade que o caos na página escrita seja o melhor símbolo do extremo caos a que estamos destinados: considero isso um erro característico do nosso século inseguro.
27 setembro 2026
carrossel.
09 agosto 2026
02 agosto 2026
sentir apenas.
É um filme muito simpático. Sem pretensiosismos de nenhuma espécie se fez um filme, e retrato, sólido. A estreia [em longa-metragem] de Sarah Friedland, que anda por cá nas salas, dá-nos uma imagem humana e naturalista, sem odisseias macabras ou desesperadas, da velhice, através da vida de Ruth, uma octogenária que se vê enlaçada na doença de Alzheimer. Familiar Touch é o trabalho paciente - que espera "todo o tempo do mundo" para ver acontecer - e quase informal da câmara de Friedland que encontra uma actuação Soberba de Kathleen Chalfant (a melhor que vi este ano, em estreias), a Ruth. O filme, na sua forma de dizer inaudivelmente os íntimos daquela mulher afectada pela doença, aprende a viver de novo, e é recíproco em relação a Ruth e sua família; o estruturar de toda a fauna visual naquela casa de repouso sénior americana liga-se, de modo tácito, aos gestos e aos toques humanos, sempre felizes - não há sinais de tragédia nas variações do rosto de Ruth ao longo do filme e nas suas ações; talvez um pouco de frustração, mas aceitação também.


