23 junho 2026

paisagem quase no fim.



rápido é o silêncio,
brevíssima a sombra
destes cães que se transportam
ao rio para beber o meu pensamento.

o sol trespassa,
a árvore inclina
neste vento que ordena
ao meu ouvido o caos doce e simples

do que sinto.

 

25 abril 2026

what's in a name?


Jon Fosse, desde que o li, tornou-se um dos meus contemporâneos estrangeiros favoritos. E a reputação do prémio Nobel enquanto prémio literário também incrementou com o seu nome entre os laureados. É sempre assim com os bons escritores: não é o prémio que lhes aumenta o prestígio pessoal, é precisamente o caminho inverso. E ontem fui ver uma peça de teatro de Fosse em estreia. O Nome [1995]. Gostei bastante. Apesar de existirem por ali umas adaptações técnicas meio foleiras, o texto e estética muito particulares de Fosse fazem esquecer essas coisinhas.

08 março 2026

à volta da fuga que é encontro.

Um escritor não é o que quer ser, é, antes, tudo aquilo de que foge. Quando escreve, a sua ressoada originalidade é procurar um meio de ser ainda mais original. E para isso tem de fugir de tudo o que já leu, tem de fugir de si e da sua história.

15 fevereiro 2026

Tabacaria Aplicada

Não vendo nada.
Nunca venderei nada.
Mas pelo menos sou livre e corajoso.

24 dezembro 2025


Deserto. Óleo. Cada palavra um romance. Alugo 
prazer e frutos recolhidos
sem remorso na hora de os mastigar.

O papagaio e a noite perdem-se na noite.
Escrevo o repouso da minha cabeça em ti mesma
esperando o Sol chegar
e atravessar o janelão até ao universo de ácaros
e casebres volteados na consciência. Este sou
e a linguagem despovoada é o saboroso
filho do nosso corpo.

21 dezembro 2025

vão ao cinema.

Uma lista dos meus filmes favoritos em sala, 2025

«Sob a Chama da Candeia», André Gil Mata
«L'Empire», Bruno Dumont
«The Seed of The Sacred Fig», Mohammad Rasoulof
«L'Histoire de Souleymane», Boris Lojkine
«It Was Just an Accident», Jafar Panahi
«A Traveler's Needs», Hong Sang-soo

Uma lista de favoritos no sofá

«The Holdovers», Alexander Payne, 2023
«Frágil Como o Mundo», Rita Azevedo Gomes, 2001
«A Simple Plan», Sam Raimi, 1998
«Sing Sing», Greg Kwedar, 2023
«Burning Days», Emin Alper, 2022
«Barbe Bleue», Catherine Breillat, 2009
«Trenque Lauquen», Laura Citarella, 2022
«Jeux Interdits», René Clément, 1952
«Suddenly, Last Summer», Joseph L. Mankiewicz, 1959
«To Be or Not to Be», Ernst Lubitsch, 1942
«The Swallows of Kabul», Zabou Breitman/Eléa Gobbé-Mévellec, 2019
«A Pedra Sonha Dar Flor», Rodrigo Areias, 2024
«The Ice Storm», Ang Lee, 1997

Podia continuar, mas está aqui um bom resumo.

01 dezembro 2025

e assim vou, sem ir.

É trágico saber-nos destinados à obscuridade das vanguardas, que é para onde tendem todas elas. Do fim do tempo. Do frio absurdo. Nunca serei um escritor rentável e visível, porque isso, estou no fim da história a fazer os meus vanguardismos agressivos. Só a poesia me salva, e mesmo aí não sei se sou entendido. Senão vejamos: o romance social teve os últimos estertores nos modernismos do século XX. E eu sou todo modernismo século XXI. Bem sabemos que é baralhar e voltar a dar. Não há novidade. É só uma forma de dizer e estar. Mas, porra, a minha forma de dizer é muito agressiva para as mentalidades vigentes. Nunca, ninguém, me entenderá. Ou entenderá, assim: objecto estranho e paranóide. Meio anjo, meio animal.

Se escrevesse um romance, suspeito que primeiro teriam de lhe dar um novo designativo. Escrevo já para a arca? Também não é muito comigo essa atitude heróica. 

E assim vou, sem ir.

30 novembro 2025

oh gente do meu país, ou whoever/wherever

 No Vale do Pereiro, Sertã, existe a Casa de Gigante.

Bela casa, boua causa.

Vão.

Eu fui e irei. Muntaaas xs. Mais muitas.

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(podem pesquisar na net, mas está desactualizado:  vão)

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(ou nunca mais vos emprestarei os meus brinquedos)  


16 novembro 2025

 




regresso ao universo do senhor redman
desta vez imbuído de uma tristeza doce










02 novembro 2025

 





um dos mais interessantes projectos nacionais
a iluminar o jazz de domingo à noite












26 outubro 2025

 




o imortal trio de bill evans num domingo no
village vanguard de nova iorque: um clássico
instantâneo, como alice no país das maravilhas











14 outubro 2025

o primeiro dos Polanski.


É feliz; é feliz a ideia de cumular a faca à água. Essa imagem. A imagem, nervosa e que vem do dentro para o dentro, do belo filme [longa-metragem] de estreia de Roman Polanski, de 1962. Que, a não ser o minimalismo técnico e a plasticidade à deriva de uma língua própria, não parece uma primeira obra. É já crescida. 

O estrangeiro, vagabundo e jovem, repete várias vezes que a faca não lhe serve de nada na água - lugar natural do homem do leme, o nosso Andrzej - não a corta; mas lá de onde vem, no mato, é-lhe útil. Está dado o tom: pseudo-subserviente enfrenta o autoritário. E o quanto é que apetece circum-navegar por uma retórica análoga à situação política da Polónia daquela era? É, apetece.

O Eros, todo ele Antonioni, neste filme de Polanski dá as voltas que quer pelo mar obscuro de lâminas que é a masculinidade e torce pescoços de pronto, ou não tivéssemos uma faca rasgando as águas silentes e pantanosas de um casamento fracassado. Como um sexo que retorna ao lugar de prazer, Andrzej é absoluto, personagem-sem-delírio, mas a cabeça estoura de ressentimento quando Krystyna arma a revolução que lhe estava há tanto por fazer e, sobretudo, dizer. 

Porém, é tudo um caos calmo em êxtase de fogo-fátuo, filmado quase de forma bárbara, porque pequena e incalculável a adrenalina que corre entre este trio que nasce de um acaso. Não faz muito sentido falar do destino até que a última imagem do filme nos ensombra.

12 outubro 2025

contra o esquecimento.


Deus existe, existindo contra o esquecimento. Nós esquecemos, passamos paninhos, fiu fiu fiu, é só assobiar para o lado. Mas uma, à falta de melhor designativo, entidade que sabe tudo e vê tudo... já devíamos estar a tremer, como lá o coisa ruim está, porque sabe que o tempo dele é curto. E sabe que Deus existe contra o esquecimento. Para o bem e para o mal, atenção. Deus é uma verdade MUITO inconveniente para muitos milhões de pessoas. Cada vez mais e em maior número. Mas a indiferença-burguesa-apalermada também se paga, cêntimo a cêntimo - já disse que Deus sabe e vê tudo? Porque Deus não esquece de quem o esquece, ou, por ser demasiado inconveniente, o quer esquecer. Persegue-os, nos casos sem emenda, até à morte. Deus não condena ninguém, diretamente ou por capricho: é a alma empedernida no pecado e no crime que entra em desespero ao entrar em contacto com a realidade que achava não existir, e se condena. Ela própria não suporta tamanho antagonismo. Há aquela ideia de que o inferno é alaranjado e vermelho, que há um fogo que devora. Devemos esclarecer que o inferno é muito mais branco: o fogo que devora é um vazio perpétuo imenso. É a alma separada de Deus, sua fonte. É uma dor de não ter que se transforma em sentimento negativo. Um estado de negação completo. E ainda deve ser mais coisas, nenhuma delas boa. O bom é lá em cima.

06 outubro 2025

Embora tenhamos o Nuno Lopes ao nível médio do Nuno Lopes, Lavagante não dá nada ao espectador para levar, ou ficar, consigo; no fim, não se entra num êxtase amoroso Jane Austeniano, nem lacrimejam os olhos de ver o sacrifício "socialista" Ken Loachinano ser parido nas nossas emoções. Fica-se especado, sem intensidade, entre imagens que vão de A a B e de B para A numa dança muito sem sal e alegria, sem luxos de recorte, tudo assintomático, um discurso em que lhe falha a super-abundância do tempo que retrata e actores capazes de o dar a entender, e cheirar. Apesar da boa-vontade, isto é só transportar bagagem. Quis, Mário Barroso, fazer-se tão entender, que tornou tudo num imenso plano cheio de escrúpulo com 90 minutos. A pedir licença à nossa inteligência para ser suficiente. Acho que José Cardoso Pires entrega mais do que trabalho de arquivista... 

Entendemos, à distância, que este filme é só não-sofisticado: uma estória de amor ténue, porque doente e censurada; sem fuga, é o natural-betinho de boas-famílias em todo o seu esplendor; o que só apetece dizer no fim é 'E daí?' - tanto é o que acrescenta e, como bónus, temos o Diogo Infante a fazer de mauzão PIDEsco... 

Ele anda por aí, nas salas.

05 outubro 2025

 




cinquenta anos depois, a música dos soft machine
regressou aos tempos de antena caseiros. e bem.