28 outubro 2017

sur la fin

Os finais são quase sempre desagradáveis, bastando pegar na palavra com pinças/luvas/mãos despidas. Invariavelmente, são tenebrosos e causam sofrimento. Outras vezes, são deliberados, como as certezas (e são poucas, na vida). Fica sempre, em qualquer dos casos, um vazio e, mesmo tendo consciência que esse vazio poderá ser preenchido, é fundamental perceber a determinação sobre esse vazio, sob pena de repetir ad aeternum (ou naquilo que nos resta de vida) um princípio que pareceu a expressão máxima do nosso poder de determinação, para depois compreender que a vida, as nossas vidas, não se resumem a nada, nem ninguém, em concreto.

Em geral, está mais na nossa mão, a vida, do que possa parecer. E manter o nariz erguido, ainda que seja a dar para o adunco (como o meu, o que, aliás, é cousa irrelevante, ou talvez não).

26 outubro 2017

(cont.)

É que, sem quaisquer propósitos além do prazer do aroma e do sabor, tenho vindo a colectar folhas e flores de aromáticas para fazer a minha infusão de eleição (líquido adorado, ao acordar): ah, tonta!

Nisto, vamos em: hortelã, tomilho, perpétua-morango, perpétua-branca, salvia, salvia variegata, erva-príncipe, hissopo.

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Ainda sinto que falta qualquer coisa, mas não me façam perguntas.

25 outubro 2017

uma palavra nova por dia não sabias o bem que te fazia

Séssil.
Achei-a quando buscava do hissopo que, sim, cheira exactamente como é descrito, mas é da folha que falamos, a palavra, nela.


(cont.)

24 outubro 2017

efeitos especiais

ain't nothin' slow the same way there ain't nothin' fast.
(a chanson é boa e alembra-me os tempos em que dançava, grávida, chegada do desemprego dos dias, sozinha, rodopiando pela sala de mãos no ventre: são ambas melómanas e mui ecléticas: donde, o meu riso, o optimismo, amor denso, as prioridades)

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Donde, ainda hoje, a guerra, se for para a guerra, mas sempre a paz, quando, e principalmente: elas, primeiro, até ao meu último suspiro, e não, não me esqueço de mim, aliás, são elas as primeiras a desejarem a minha felicidade, tranquilidade, alegria... ritmo :)

22 outubro 2017

E não lhe pagaram royalties.

Os meus pais tinham este quadro em casa por acharem que era a cara chapada do meu mano. Revendo fotografias antigas, realmente, era verdade mas o moço não era nada dado a choradeiras; era mais espatifar as plantas do jardim, partir vidros e tentar incendiar os barris do avô dia em que depois de ter sido apanhado em flagrante esteve uma tarde inteira em cima de uma árvore para fugir à punição. Não jantou e foi para a cama mais cedo a resmungar impropérios dignos de um estivador com salários em atraso.


20 outubro 2017

"i'm not a phone person"

Cunhada grande dixit e eu subscrevo, mas diga-se, será também pelo facto de ambas partilharmos uma característica comum (além de gostarmos tanto do meu mano grande, seu marido): gostamos ambas de observar, mais, observar aquilo que é designado como body language. Aprende-se muito, e a professora de décadas é ela, não eu.

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Neste exacto momento da minha vida necessito e necessitam - a few - que fale, por emoções e razões da máxima importância, mas poderia, sinto-o, permanecer em silêncio durante semanas, meses.

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(foi-se, paizinho, a metralhadora, não me reconhecerias, aliás, já a não reconheceste, aos 18, mas existe ainda quem necessite tanto de metralhar que deixou de escutar, observar)

sete ventos menos sete

suporto cada vez menos, ou já não suporto, de todo, a conversa que elege/ergue/etc. alguém, à qualidade de herói.

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Desconheço a origem desta minha forma de pensar, mas é muito provável que tenha origem, em grande medida, no sofrimento da maioria dos cidadãos, anónimos, que não constam das parangonas, sequer na esquina do bairro, lá, onde estacionou o, aquele(s) café(s) pacato(s) de observar gente mais do que falar, menos ainda de berrar. Sobre.

Pimba!

Boa notícia: vou ser avô. Má notícia: escrevi um obituário sobre gostos musicais...

May your path to righteousness run red with the blood of your enemies.

19 outubro 2017

coreografia

(lembrei-me disto, subitamente, pensando em mim e nas minhas duas filhas,  não somente na questão geográfica, muito na do crescimento pessoal, que inclui a geografia, mas no qual esta é, efectivamente, um montinho de pedras, um riacho, uma mancha de arbustos)

a vida continua e fardas não dão comigo

enquanto os gostos se discutem, claro, jamais pensei de forma contrária. Os gostos discutem-se, só não é permitida a ofensa, o amesquinhamento, a intolerância fundamentalista.

Admito que me me digam - com riso & tudo - que sou foleira (com as letras todas, sim, sem itálicos/aspas) por escutar 2/3 da Celine Dion, da Mariah Carey, 1 do Marco Paulo, 1 da Shakira. Não admito o resto: a ofensa, etc., com o apêndice de "és tão inteligente que".

I'd rather be stupid do que escutar semelhante falácia.

De resto, escuto as minhas cenas com auriculares e, diga-se, quem me considera verdadeiramente inteligente, sempre respeitou as minhas idiossincrasias, já que todos as temos.

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(sem tempo para tretas exuberantes)

18 outubro 2017

i bless ya, woman

calças (ganga?) e saltos (botas práticas).

por mim, põe o que te apetecer, pessoa rara, continua, caminha.

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(isto inclui batom vermelho, verniz roxo, mini-saia, o que te apeteça, excepto parar, com o teu direito - claro - a espaços para respirar devagarinho).

todas as circunstâncias, dimensões, etc.

17 outubro 2017

o acontecimento mais lindo da vida consegue deixar-nos em silêncio:

também.

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(dele direi, dentro de uns dias, não agora, que tem tanto de complicado, pelo que implica, quanto de belo: estou ainda a viver numa outra dimensão)

11 outubro 2017

Adeusinho.

Esta noite tive um ataque de soluços que durou oito horas e não estou nem a brincar nem a exagerar. Oito horas bem contadinhas. Claro que não dormi e agora estou entretido a tentar matar moscas com o olho que ainda vai funcionando e a dar porrada na gata que não me ajuda nessa seminal tarefa de eliminar estes asquerosos animais que cá entram sem convite. Estou cansado e mal-disposto. Haverá espingardas para matar as ditas cujas? Compro já!


06 outubro 2017

Piaget.

Odeio a colossal ignorância e indelicadeza que assola as pessoas; saio por vezes à rua com o olho cego tapado com um penso que a minha Princesa amiúde me coloca. Os miúdos olham para mim com curiosidade e sem medo e por vezes ouço os pais dizerem "deixa o senhor que está doente". Estão apenas a olhar sem incómodo para mim, pelo contrário. Não, não estou doente, apenas magoado...

Pecadilhos.

Ontem em preparos para rever o "Decameron" do Pasolini dou de caras, e não só, com o padre. Enderecei o convite para que assistisse ao visionamento da coisa aqui em casa. Declinou argumentando que tinha dois funerais e um baptizado e era mentira. O que algumas pessoas fazem para não verem abaladas as suas convicções. Mais tarde vi-o sair da casa da solteirona balzaquiana, todo transpirado...

05 outubro 2017

ahahah!!!

primeiro, estranha-se, depois, entranha-se (foi sempre assim, com ele & les autres, parece-me).

(e não, não tenho uma cadeira Costes, acalmem-se, que a democracia do acalmanço chega a - quase - todos)

Portugal



Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente.

Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas.

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador.

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade.

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos.

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe.

Portugal

gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.

Jorge de Sousa Braga

secas vs augas

(...) 
Importações que também não contribuem para o tal ciclo das alterações climáticas.
Precisamente. O que se passa é que as pessoas nas cidades, sobretudo as que têm facilidade económica, vivem numa redoma. Numa cidade que tem parques, jardins que são regados, ter mais um dia de sol é agradável.(...)
É verdade, mas 
 Vai ser cada vez mais importante.

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Não é só na cidade que se vive numa redoma, sequer nos círculos de gente que frui de facilidade económica. Aqui, no 'interior desertificado' (continuarei a aplicar esta sinalética, já agora, que nunca o disse, por - por ex. - no último prédio onde vivi, em Coimbra, fez já uma década, um prédio de 8 andares, ser cumprimentada exclusivamente pelos estudantes do apartamento do lado e pela vizinha do 8º andar, que só descobriu que me "conhecia" e que a minha filha mais velha frequentava a escola onde ela leccionava, quando se viu a sofrer de absoluta solidão com mais de 1 ano de baixa médica...), mas, dizia, aqui, no 'interior desertificado', grassa também uma total falta de noção sobre a sustentabilidade ambiental e, se muitas vezes recebo legumes e fruta isso deve-se ao excesso de produção, não exactamente ao factor generosidade. De resto, os excedentes alimentam os animais e já me foi dito, em tom de brincadeira simpática, mas em registo verídico, que nem as galinhas e os porcos podiam já ver alho francês, courgettes, etc. Isto, em anos bons, as augas escorrendo das nuvens.

A solidariedade dedicada a Pedrógão Grande também passou, em (enorme) medida, por uma espécie de show off narcísico: os relatos de ajuda e esforço que ouvi, e as palavras bem pesadas, o erguer de pulsos, tudo junto, redundou numa dança execrável, precisamente naquela altura em que foi publicamente anunciado que os bens recebidos raiavam já o excesso e que, voluntários para distribuição, nomeadamente, er, talvez fosse bom para o preto (ou cheio de fuligem, não m'alembra). Quanto mais não fosse, para retirar das oferendas as fraldas cheias de merda ou as cuecas de uma menstruada, tudo gentilezas de quem considerou que ainda por lá estacionariam os camiões cisterna.