07 setembro 2016

Notas dos forrinhos.

Helmut Newton

Viver uma vida inteira sem conhecer o carmim, o escarlate, o cinabre, o magenta, o púrpura - são vários os matizes - é como passar a vida meio cego. Conhecer todas estas cores, os rosa salmão, os rosa-choque, os orquídea brilhante, os fucsia, os granada e os carmesim, permite-nos pensar escolhas que não existem para quem conhece apenas o vermelho.

06 setembro 2016

e a ti,

já te aconteceu ler e não ler, em simultâneo?
(é que, repara, a leitura não é nunca uma, única).

mas sei o que é o romantismo, de que raio se trata e até mesmo praticá-lo

Raras são, contudo, as ocasiões e as pessoas merecedoras de tal feito.
De resto, não desejo medalhas. E, segundo parece, a taça, o cálice, somos nós. Uma pessoa consegue cansar-se, mesmo cheia de energia. Deverá ser esta a fonte da boa preguiça, finalmente, regressar à origem das brincadeiras de observação.

D. Armanda e filhos

É a mãe de um toxicodependente ligeiro da vila, que está actualmente com termo de identidade e residência por lhe terem descoberto na horta, lá no meio das alfaces, couves, tomates, batatas, uns pés de marijuana. Contou-me hoje parte da sua vida, a mãe que criou a pulso os 6 filhos, um já morto e ele, o único que se recusa a ir embora por considerar a mãe a guerreira que precisa do respeito e da companhia que lhe são devidas. Apareceu ela, nem de propósito, uns minutos depois. Vê-se que está lúcida, lembra-se da minha família (foi 'criada' da maior parte dos tios antigos) praticamente toda e descobrimos que é familiar de uma sobrinha de uma tia avó casada com um tio avô meu (irmão do meu avô).

Sinto uma tristeza tão grande diante desta alegria de 'reencontro' que não a deixo sair sem que beba algo fresco, que lhe ofereço com o maior prazer. Diz-me que sou linda, não acredita em mim quando lhe digo a minha idade, gaba a minha família por lhe ter pago sempre a horas.

Dos seis filhos, um já morto, resta-lhe este, que respeito muito (creio que a GNR também) por se recusar a abandoná-la, como todos o fizeram. O morto não conta, diante dos vivos.

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Sim, sinto também um orgulho enorme quando ele me diz que as minhas meninas são educadas, que sou uma mãe tão guerreira quanto a sua.

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Na festa da aldeia ali ao lado, no fim-de-semana, quando um imbecil mandou uma piada asquerosa à minha nigga, acompanhada de uma amiga, veio outro homem de quase idêntico passado (que é igualmente protector de ambas, pois que o cumprimentam e conversam com ele) colocar-se de permeio, dizendo:

- São as minhas filhas!

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(nenhum tem filhos, de facto, mas esta prosa é também uma forma de lhes agradecer o respeito e a protecção pelas minhas, ensinadas desde muito cedo a não ostracizar ninguém de bem e a manter cautela com gente supostamente 'de bem' que, tudo o que traz, é ruína, sujidade).

Johnny Be Goode e Youssouf Ludwig à parte (salvos sejam, abençoados & assim & tudo)

Existe uma forma de semear que basicamente consiste no tiro ao alvo. Soube disto quando me movi para aqui, por conta da muito elevada percentagem de inclinação das margens do lago artificial, nas quais pé de planta alguma vingava. As vencedoras (mas é preciso salientar que não se tratou de plantinhas de estufa, antes de malta autóctone, verdadeiras aborígenes) vingaram, a tiro.

Fundo, fundo. Invejo-as, ainda hoje, vi-as crescer e estão magníficas.
Nada que eu possa dizer da minha pessoa, mas também, por outro lado, nada que eu lamente.
Continuo sem terra, sabe-me (ainda) muito bem.

Eu, poesia, é mais assim

O Luar Através dos Altos Ramos

O luar através dos altos ramos, 
Dizem os poetas todos que ele é mais 
Que o luar através dos altos ramos. 
Mas para mim, que não sei o que penso, 
O que o luar através dos altos ramos 
É, além de ser 
O luar através dos altos ramos, 
É não ser mais 
Que o luar através dos altos ramos.

Alberto Caeiro

ó Jorge Sousa Braga!

Está aqui um menino a queixar-se que eu não sou romântica e a tentar dar-me traulitadas!

. é por não ser romântico que, a espaços, prefiro a poesia hídrica, fluida e límpida, à prosaica poesia dita bélica, afinal imóvel e baça, e pronto, ganhaste, fica lá com a trotinette .





Poema em forma de delta



Há rios
que são navegáveis
e navegam. É desses que eu gosto.




Jorge Sousa Braga




é por não ser romântica que, a espaços, prefiro a poesia bélica, mate, à poesia prosaica dita poética, reverberante

Carta de Amor

(A Eugénio de Andrade) 

Um dia destes 
vou-te matar 
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume) 
a medir o tesão das flores 
ali no jardim de S. Lázaro 
um tiro de pistola e... 
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto 
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz 
todos os poetas celestiais 
que ninguém te virá acudir 
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade 

Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão 
Um dia destes vou-te matar... 
Uma certeira bala de pólen 
mesmo sobre o coração 

Jorge de Sousa Braga, in 'De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu' 

04 setembro 2016

o momento,

exacto, em que alguém sai da tua vida (mas já sabias, sabes sempre antes).

o dia

workshop sobre uma foto não é uma foto não é uma foto

pessoas

Lembro-me do índio, e do conforto que sentia, eu.

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Não tenho tese nenhuma, mas talvez isto se deva ao facto de sempre ter lidado com gente aparentemente distante, mas inacreditavelmente afectuosa, mesmo sob a máscara da indiferença, da dureza, da falta de manifestações de afecto.

03 setembro 2016

. o último poema do último príncipe .






Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre a minha caixa torácica.





Matilde Campilho





02 setembro 2016

chama-me fútil e levas com o Satcho na testa

E hoje, depois do cabelo, modifiquei as sobrancelhas. Aprovação geral, é assustador, de tão habituada que estou a ser contrariada.

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Estou a um passo de voltar a cortar o cabelo muito curto com a tesoura do peixe (sim, continuamos sem outra) e de o pintar de branco.

01 setembro 2016

noblesse oblige

Mas não desejo voltar a repetir-me.

Comecei a falar aos 9 meses, com uma perfeição assustadora para um bebé que ainda não andava (mãe dixit e tios corroboram). Do que me lembro mesmo é de andar atracada ao meu pai (se é um facto que o meu maninho mais novo o conheceu aos dois anos isso significa que também eu o revi ali  pelos meus menos 3 de idade, ou recém 4, não interessa precisar. Não me recordo de jamais me ter enxotado, recordo sim um sorriso largo, sem outra retribuição (não sabia, não teve como, sorriu, contudo, com alegria, isto, eu recordo). Sei, sim, que já o escrevi, que constitui, esta memória, parte da minha melhor parte, límpida, não inventada.

- pai lindo.

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não quero voltar a isto, mas a família da minha mãe demoniza-o, agora até parece fácil, morto há décadas, homem de esquerda, ateu, parte do MFA nesta mesma terra (a materna). Uma espécie de demónio. Sou, de facto a sua descendente, sem os galões. Sou. Sou. Mudamos todos muito, mas existem pormenores que nos fazem: o meu pai adorava ser beijocado e abraçado, retribuindo com a construção de brinquedos e os melhores médicos especialistas nas mazelas dos filhos.






















. salão de fumo .




quando o mail chegou nem queria acreditar. a laurie deu-me a resposta com que sonhava há muito: o lou viria até à hospedaria e tocaria no salão de fumo, talvez canções de outros, as que sentisse apropriadas. e hoje, neste primeiro dia do mês, quando entrei no salão e o vi a tocar a september song do kurt weill ocorreu-me que isto de ser imortal tem destas coisas: vendem-se menos discos mas, mesmo com os dias mais curtos, tem-se mais tempo para coisas informais. 
for it's a long, long while from may to december, and the days grow short when you reach september...