É a mãe de um toxicodependente ligeiro da vila, que está actualmente com termo de identidade e residência por lhe terem descoberto na horta, lá no meio das alfaces, couves, tomates, batatas, uns pés de marijuana. Contou-me hoje parte da sua vida, a mãe que criou a pulso os 6 filhos, um já morto e ele, o único que se recusa a ir embora por considerar a mãe a guerreira que precisa do respeito e da companhia que lhe são devidas. Apareceu ela, nem de propósito, uns minutos depois. Vê-se que está lúcida, lembra-se da minha família (foi 'criada' da maior parte dos tios antigos) praticamente toda e descobrimos que é familiar de uma sobrinha de uma tia avó casada com um tio avô meu (irmão do meu avô).
Sinto uma tristeza tão grande diante desta alegria de 'reencontro' que não a deixo sair sem que beba algo fresco, que lhe ofereço com o maior prazer. Diz-me que sou linda, não acredita em mim quando lhe digo a minha idade, gaba a minha família por lhe ter pago sempre a horas.
Dos seis filhos, um já morto, resta-lhe este, que respeito muito (creio que a GNR também) por se recusar a abandoná-la, como todos o fizeram. O morto não conta, diante dos vivos.
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Sim, sinto também um orgulho enorme quando ele me diz que as minhas meninas são educadas, que sou uma mãe tão guerreira quanto a sua.
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Na festa da aldeia ali ao lado, no fim-de-semana, quando um imbecil mandou uma piada asquerosa à minha nigga, acompanhada de uma amiga, veio outro homem de quase idêntico passado (que é igualmente protector de ambas, pois que o cumprimentam e conversam com ele) colocar-se de permeio, dizendo:
- São as minhas filhas!
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(nenhum tem filhos, de facto, mas esta prosa é também uma forma de lhes agradecer o respeito e a protecção pelas minhas, ensinadas desde muito cedo a não ostracizar ninguém de bem e a manter cautela com gente supostamente 'de bem' que, tudo o que traz, é ruína, sujidade).