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06 setembro 2019





[para mim continua apenas a ser um poeta, foi nessa qualidade que primeiro o conheci. só muito mais tarde soube que era teólogo e tinha sido ordenado padre. chega agora a notícia da sua nomeação para um dos mais elevados cargos em toda a hierarquia eclesiástica e essa parte, confesso, diz-me pouco. como pouco ou nada me diz o ruído ao redor do assunto que por aí anda. mas a partir de outubro sei que apenas um dos cardeais poderia ter escrito isto - e eu sei quem foi. e isso basta-me.]




O poema


O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de
incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do
apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há
poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O
poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos
nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no
mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O
poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agi-
tação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o
inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina
o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que
o mundo repudia.



José Tolentino Mendonça




16 agosto 2016

. verão .







O verão é feito de coisas 
que não precisam de nome 
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa 
às suas voltas escuras 





 José Tolentino Mendonça






09 julho 2016





Muitas vezes Deus prefere
entrar em nossa casa
quando não estamos



José Tolentino Mendonça