
É esta a imagem do quarto de albergue perfeito para quem está só de passagem. Acolhedor para seis pessoas, limpo e lá no alto. Não podendo erguer-se ao sótão, caso o pé direito o não permita, que tenha uma janela ampla, com moldura de madeira, a dar para um pátio ou para um quintal com couves que se veja que são colhidas para a sopa, pois apresentarão pequenos cortes no caule. A janela visível poderá ter um parapeito com duas ou três moscas mortas e pagelas beatas com cores fortes gastas nos cantos, esquecidas por viajantes anteriores ou mesmo ali deixadas de propósito, nunca saberemos. Na parede oposta, junto à porta, estará uma cómoda baixa com puxadores de latão envelhecidos que alguém foi recuperar da casa de um familiar falecido. À semelhança, aliás, da maioria do mobiliário que encontraremos nas restantes divisões da casa. Quatro gavetas a toda a largura, para os peregrinos que optem por retirar a roupa da mochila e permanecer em descanso por mais do que uma noite. Acima, duas gavetinhas menores para a roupa interior. Abrindo casualmente a da esquerda, encontraremos um jornal português, que retiraremos por curiosidade. Não o lemos da data que aparece impressa, claro, que nem sempre lemos os jornais porque já deixámos de os comprar e nem sempre os encontramos no café do costume porque o freguês anterior o levou para casa dentro do saco das mercearias. Alguém disserta, nas primeiras páginas, sobre Deus e sobre o Amor e sobre as pessoas em volta e lá dentro.