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11 junho 2019

(a verdade é esta: também na composição/desarranjo de flores & outros pedaços achados nas caminhadas, as pedras, os paus,



tenho que lhes mexer, pelo menos, 6 vezes. Ainda que temporário, qualquer trabalho onde ponha as mãos leva sempre, em acrescento, em retirado, em deslocado, com as mãos, o olhar inquieto.

04 janeiro 2019

(aguardar cerca de 1 hora, sem picos)

A mousse de lima está pronta, na copa, aguardando, com o frio, a consistência ideal, que o sabor,..
Bom, talvez tenha raspado demasiadas, para a cobertura, mas, o sabor...


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(não esperei uma hora e provei, aah!, ficar a trincar os pedaços de raspa de lima - que jamais deixaria em invisível, esparso - no dia em que eu seguir uma receita linha atrás de verso, acreditem, não estou em mim - depois do leite condensado e das natas em chantilly, cousas do demo!, que sou mesmo é de salgados e cítricos na língua, todallas línguas)

14 março 2017

. a room with a view .






“o signore não tinha nada a ver com isso” – disse miss bartlett – “e não há nada a fazer. ele prometeu-nos quartos virados a sul, com vista e próximos, e em vez disso temos quartos a norte, olhando para um pátio, e distantes um do outro. oh lucy”.

“e cockney, além disso!” – disse lucy, que tinha ficado mais triste com o sotaque inesperado do signore – “podíamos estar em londres”. olhou para as duas fileiras de comensais que estavam sentados à mesa; para a fila de garrafas brancas de água e garrafas vermelhas de vinho que corriam entre as pessoas; para os retratos da falecida rainha e do falecido poeta laureado, muito enquadrados; e para o aviso da igreja anglicana (rev. cuthbert eager, m. oxon.), que era a única outra decoração da parede. “charlotte, você também não sente que podíamos estar em londres? eu mal posso acreditar em todo o tipo de outras coisas que estão lá fora. suponho que é de estar tão cansada”.

alguns dos vizinhos trocaram olhares, e um deles – que era eu, sabedor do que são desilusões e desejando corrigir as duas meninas no que ao matisse dizia respeito – inclinou-se um pouco sobre a mesa e disse: “eu tenho uma vista”.

“ah”, disse miss bartlett, reprimindo lucy, que estava prestes a falar.

“o que quero dizer”, continuei, “é que as senhoras podem ficar com o meu quarto, que é de longe o mais espaçoso e com melhor vista de todos os que existem nesta hospedaria. como são companheiras de viagem, notarão que ali cabem perfeitamente duas camas. além disso”, acrescentei com um sorriso, “o signore não é italiano, é francês. mas, há que admiti-lo, quando tenta falar inglês imprime um timbre algo peculiar à sua voz. chama-se matisse e creiam que estará sempre à vossa disposição”.

levantei-me da mesa, encaminhei-me para a recepção onde a minha mala repousava, tão indolente a um canto quanto o meu amigo recepcionista. sem trocarmos uma única palavra, apertámos as mãos e olhámo-nos durante um breve instante. sabíamos que nada mais havia a dizer. desci as escadas sem pressa, o condutor colocou a mala no táxi e acelerou, descendo a estreita alameda.
não olhei para trás.

(...)

a juventude envolvia-os. a canção de faetonte anunciou uma paixão exigida, um amor alcançado. mas eles estavam conscientes de um amor mais misterioso do que esse. a música extinguiu-se. e eles ouviram o rio, levando as neves do inverno para o mediterrâneo.



. fim .

02 agosto 2016

Vista do sótão.

© Lucien Clerge

Não há nada como vir ao pôr-do-sol quando as gaivotas regressam à praia. De certo era este o som do mundo antes do homem existir. Quanto é que isto me irá custar?

12 julho 2016

O estranho caso da voz interior que recitava poesia.

Sou eu. Estou bem. Amo-te. Já não sabia o significado da primeira frase. A segunda era falsa. A terceira já não tinha importância nenhuma. Estava cansada. Perdida num emaranhado de definições. Diante dela abria-se a perspectiva terrível de uma sucessão infindável de encontros indesejáveis, como imagens reflectidas ad eternum num espelho tripartido.

07 julho 2016

. salão de fumo .





de novo no salão de fumo, a folhear "wanderlust", o excelente catálogo da exposição de joseph cornell na royal academy of arts, dou-me conta que alguém se sentou num maple junto à janela. reconheço-o de imediato. considerado um dos pais da música dita "ambiental" e também de um certo "minimalismo", há anos que abandonou as gravações e vive retirado, longe da ribalta. ganho coragem e tento iniciar uma conversa, louvando os seus poucos discos, que o futuro se encarregará de endeusar como "seminais" e adjectivos afins. harold budd sorri e diz que só veio por causa da música comercial que se ouve nas raves in my room… (shame).










29 junho 2016

ei!

vamos ao caril?
hoje comemos lá fora, não sei se repararam nas movimentações desta tarde: boa parte dos maples (faço tudo o que for necessário para usar esta palavra tão deliciosamente seventies) rumou às dunas, diante do rebentar das ondas. Traje? De acordo com o mais livre gosto de cada um de vós, ou como estiverem de feição. Não se prevê qualquer nortada e teremos espetadas de fruta. Só não carrego as garrafas, os cristais já repousam, literalmente, segurei-os com conchas e pedras apanhadas nos últimos dias. 

19 junho 2016

. salão de fumo .






após a tarde passada no ameno jardim, olhando com nostalgia as azuis águas da piscina - onde imaginei a mansa foz deste meu rio espraiando-se no mar e quase vislumbrei uma tágide - recolhi ao edifício da hospedaria. a ausência do senhor matisse na recepção e um distante som de piano fizeram-me entrar no salão de fumo. enquanto um senhor idoso dormitava num sofá, o senhor jarrett divertia-se no velho bechstein, dedilhando o teclado como se o quisesse apenas aflorar, numa espécie de carícia de canção de embalar. apesar de quase não ter feito ruído, reparou na minha presença. parou de tocar, olhou-me por um instante e disse sorrindo: "sabe, às vezes divirto-me a pensar no que estaria chopin a compor se estivesse aqui e agora. e depois deixo as minhas mãos imaginar o resto".













12 junho 2016

. piscina .






entretanto - e ainda sem quarto onde pernoitar - desci até ao jardim da hospedaria, procurando uma sombra fresca onde pudesse prosseguir a leitura da vita antonii, esse inspirador relato de atanásio de alexandria sobre a vida e as tentações de santo antão no deserto. tive a surpresa de encontrar uma piscina e ainda um aprazível teixo, que protegia dos raios solares um pedaço de relva onde me deitei. e então, profundamente absorto pela narrativa dos pensamentos do eremita na sua tebaida, fui novamente surpreendido pela menina que havia encontrado desnudada no quarto. sorriu-me, confessando que estava a fotografar e filmar uma campanha promocional para uma marca de roupa. em seguida, dirigiu-se para a piscina e... ah, a insustentável leveza de ser... 












11 junho 2016

. quarto .






"ohhh… a menina desculpe, peço o seu perdão, mil perdões, deve ter sido um lamentável engano da minha parte... mas iria jurar que ainda há pouco lá em baixo o senhor matisse me disse que este era o meu quarto, o que ficava ao fundo do corredor pequeno."








- foi tudo o que consegui dizer envergonhado à menina marion cotillard, mesmo antes de ser fotografada por elliott bliss. 
(esta hospedaria tem qualquer coisa que…)





08 junho 2016

. recepção .




“aqui tem a chave. lamentamos não dispor de porteiro para o ajudar a levar a mala. quanto à localização do seu quarto é bastante simples, ora observe este diagrama onde vou apontar o caminho: terá apenas que subir aquele pequeno lance de escadas ali ao fundo, lá em cima vira à esquerda e a meio do corredor comprido verá um outro corredor mais pequeno à direita. a porta que está precisamente ao fundo é a do seu quarto. mais uma vez bem-vindo e votos de boa estadia.”








- assim me recebeu henri matisse, fotografado por robert capa.




27 maio 2016

cara gente culta, inteligente, sexy e algo desaparafusada,

uma anfitriã de gema está sempre atenta, mas não em exclusivo. Ao contrário do que sucedia no Hotel, do adorado Paulo Varela Gomes, aqui não existem compartimentos secretos ou quaisquer outras ambiguidades do foro da arquitectura & demais artes & engenhos.

Uma anfitriã sabe, pressente, quando está sob vigia, pelo que lhe é fácil recorrer aos hologramas ou, na falta destes, encomendá-los aos melhores mestres, mantendo a sua privacidade intocada.


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(na copa, filetes de polvo à bengalada, para o jantar, ce soir: uma receita da casa com segredo dentro, e vinhos de Palmela, à escolha; para a sobremesa, um beijo nas faces de cada um de vós)


20 maio 2016

chorão-das-praias

Embora a paisagem seja idílica e as refeições fartas e deliciosas, não tenho encontrado o sossego de que estava à espera. Os quartos parece que se multiplicam como os pães, e os hóspedes não param de chegar, carregados com trolleys que de tão cheios partiram as rodas e chiam pelos corredores. Outros trazem a família toda em primeiro e segundo grau, uma filharada que mete medo, ressonam empilhados como pratos e de manhã acordam cedo e desbastam as manteigas e as compotas do pequeno-almoço. A somar a tudo isto, há quem mantenha em cativeiro uma pantera, animal perigoso e pouco domado que desce à adega durante a noite, caçando os desgraçados dos ratos. 

Ontem de manhã estava a bater uma no duche quando fui interrompido pela nova hóspede a espreitar para dentro da casa-de-banho. Agora não sei como se chama, Adaqualquer coisa, mas adiante. Estava com os óculos todos embaciados, portanto nem se assustou com o meu tamanho, enrolei-me numa toalha e lá fui ver o que ela queria. Ao primeiro pensei que tinha sido engano, com o milagre da multiplicação dos quartos, não me admira que existam vários números 8 pregados nas portas, mas nem era nada disso. Trazia um pratinho com uma grande fatia de bolo a sair pelas bordas. Laranja, sentia-lhe o cheiro. A saliva logo me assomou à boca, e em duas ou três dentadas dei-lhe sumiço, uma delicia. Mal sabia eu que estava envenenado, uma poção que devolve a forma original, e assim que o último naco me passou no esófago, as pernas e o tronco encolheram, e da cabeça, junto aos braços, mais seis pernas cresceram. Então fiquei ali a espernear no chão em pura agonia, agitado, contraindo tudo o que podia. A maldita da bruxa pega numa rede e começa a perseguição, consigo escapar por baixo da cama, uma pirueta na maçaneta e escorrego pelo corredor atrás de um trolley avariado. Mas nisto sai a hóspede do 4, aquela que manca um pouco e usa saia, fico especado a olhar de baixo e ela com o susto dá-me uma cacetada com a bengala. E vou pelo ar, um voo perfeito com destino ao outro lado, número 6 por sinal, e sai a Rita sempre cheia de pressa e pisa-me o sétimo tentáculo com o salto alto. Fico todo azoado, prostrado de dores ali no meio do corredor. Não fosse a santa da proprietária, apanhar-me pela cabeça e só não parei no tacho, porque ela anda numa de rabanetes e coisas verdes, rosés alaranjados. 


oferta de uma amiga...



08 maio 2016

cardo-marítimo

Acordei mergulhado no estranho silêncio da hospedaria. Um feixe muito ténue de claridade soltara-se da janela e rasgara o quarto em dois. A vista era tal e qual como prometiam no folheto promocional: o mar e as dunas, e os cardos pequeninos. Pontilhada aqui e ali por riscas de estorno e cordeiros-de-praia sem flor. Uma tela suspensa na imaginação do pintor, arredado de cena pelos pingos de chuva. O meu estômago perturbou a quietação da manhã, reclamando em bom som por sustento. Mas a casa continuava sossegada, o cheiro das madeiras enceradas e salgadas, sem sinais de vida. Recordo que se falou sobre a adega sempre aberta, mas nada disseram do pequeno-almoço. 

Milton Avery  California, Landscape/Seascape, 1942


28 abril 2016

a minha experiência tem os seus limites (incomensuráveis)

mas ainda sei dizer, descrever, redigir até 30 páginas, 800, até  (bom, na ordem das dezenas, vejamos, já exigiria pagamento).

prefiro a versão curta: um lugar onde as pessoas se cruzam, nas suas diferenças, sem sequer se cumprimentarem, caso não lhes apeteça: pagaram, ou ficámos a dever-lhes em agradecimento pela passagem.

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(os homens, afinal, e principalmente, parece que têm um problema esquisito, mas defendem muito as mulhe damas: argh!).

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esta hospedaria quer que as damas se fodam, que nesta hospedaria, se é para mencionar pipis, as mulheres preferem mesmo é a palavra pessoa.

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Porra.