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15 janeiro 2020

Tragédia de Estilo.


Desconheço por que feitiço é o último álbum de Raphael Saadiq o meu preferido do ano passado, apesar de não ter sido o que ouvi mais vezes. Talvez por ter, entre o delicioso disco-funk e batidas soturnas a lembrar algo produzido na Europa, tímido space-jam caramelizado, uma história trágica no encalço. Talvez por lá se ouvir um baixo injectado em composições de invejável orgânica - algumas delas reinterpretando temas clássicos do R&B de antanho -, e terminando todas de forma abrupta...

Entre todos os que ouvi, o que mais gostei foi mesmo Jimmy Lee... O fenómeno Billie Eilish pode esperar.



14 janeiro 2020

ODD SENSES, PsyOpus, 2009

Em parte decorrente, ou melhor levantando o véu ideológico, corrente do nihilismo negativo, no movimento cultural new weird america, a explosão verificada da fusão hardcore desde meados de 90, depois de o final de 80 ficar memorizado pelo lançar do alicerce, baseado a partir do hardcore punk, post-hardcore e linguagens periféricas, por norma mais espirituosas, o mathcore é uma réplica de um terramoto chamado math-rock. Caring and Killing (Converge), American Nervoso (Botch) ou Calculating Infinity (Dillinger Escape Plan) são os primeiros transgressores no conteúdo e a ideia de protesto da posição chegou também, ainda em 90, pela singular visão apocalíptica no universo da fusão pluri-hardcore perpetrada pelos Meshuggah, ou na neo-onda os Benea Reach, ambos a partir da Europa fria e setentrional, a um nível de desconcerto estético impressionante.

O avant-garde friccional, que os fez orientar todos no sentido do caos irreversível, patológico, do realismo psicótico e competir pelo maior objecto anti-arte [non-sense, humor negro, absurdo…], hoje, é o tema como vértice, mas nunca a base de uma série de músicos na cena norte-americana. Entre os objectos de colecção, podemos facilmente e de um modo provocatório documentar espectros tão singulares como o metal progressivo (Between The Buried and Me, Protest The Hero…), o grindcore, o black metal/death metal (PsyOpus…), fusões de vanguarda (Genghis Tron, Behold…The Arctopus…), e o tradicional hardcore. Para interpretar familiaridades, que tentam exprimir a resistência cinética da arte extrema, estes são os veículos primários do que mais técnico e à frente do seu tempo se produz hoje na música alternativa, com a utilização de técnicas de gravação avant-garde e composição musical improvisada que traz no dissídio da mentalidade a herança do erudito.

Na analepse da música experimental matemática e fusões híbridas, com core, bem duro e moderno, o aspecto diegético dos PsyOpus, banda basilar da nova onda mathcore, estrutura-se para lá da oposição entre masculino e feminino. O death metal é a tinta com que escrevem páginas desarmónicas de extrema tecnicidade, sobre lustro hardcore, com sentido dadaísta, de emergência caótica, nunca à procura da apoteose artística, mas em conjunto, buscar a exploração de cada elemento anti-sentido. De toda a incongruência fractal, Odd Senses é o terceiro e mais maduro, plausível, mimético das interrogações semânticas que sempre existiram no espírito de grupo que confunde sistematicamente actor com instrumento; da força criativa e experiência existencial de um micro-cosmos impossível de ler.

«The Burning Halo»