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13 janeiro 2019

sempre, o prazer do argumento, aquilo a que de facto chamo sociabilização, que nem tudo são 'mercados'

Também eu adoro regatear - dizem que é a veia árabe, mas coloco-a mais ali para o Norte de África, onde jamais os meus pés assentaram, como os árabes não passaram exactamente por aqui, menos ainda para "invasões" que deram/dão jeito à actual ICAR e às monarquias, antes os povos do deserto e das montanhas no continente ali abaixo.

A minha mãe fugia das compras comigo, tamanha a vergonha, a minha irmã acompanhava-me (agora raramente temos tempo sequer para uma refeição conjunta).

Com este prazer no sangue, fiz amigas ciganas na feira de Espinho, onde escolhi criteriosamente (preciso de gostar de uma peça à primeira e vou até ao último pedaço de argumento para a obter) e, depois, vai de arengar com atenção e respeito, ensaiar um virar de costas - que produz milagres - e regressar, levando a peça por metade do valor estabelecido e ainda com uma oferta final (vesti as minhas bebés com uma marca linda, de um português radicado em França, agora já tem lojas em Portugal, mas produzia aqui e tudo voava para lá, artigos de muita qualidade, o guarda-roupa diferente das minhas filhas sempre muito elogiado. Muito gorro, babete, sacos de bom algodão para colocar as mudas de roupa delas recebi de presente, em jeito de agradecimento).


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(nem quero imaginar-me num souk marroquino, dando asas ao Francês falado, meio torto, ao virar de costas, ao regresso, sabendo que neste conjunto de 'altercações' só dois pormaiores contam: se não regateias é por não dares à peça o devido valor, o teu interesse raia o nulo; se regateias, estás a elogiar o artefacto, quere-lo muito, sendo que a argumentação é como o alinhavo de uma relação encenada, todos sabendo de que se trata, mas 'fingindo' comércio e nada de 'os mercados').


(inspirado neste texto)



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mais uma leitura:


(...)

Åke​ procura entender o motivo pelo qual a comunidade cigana é discriminada na Europa e acredita que a génese está nas conversas que se geram no seio dos lares europeus. “É uma ideia passada de geração em geração”, justifica. “Os pais que têm uma opinião negativa acerca do povo roma transmitem-na aos seus filhos. É algo que passa em conversas corriqueiras que se têm à mesa do jantar. E é verdade que, quando as crianças e jovens saem à rua, também vêem pessoas ciganas a mendigar, o que vem confirmar a tese que lhes foi imputada; mas é um fenómeno circular.”


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e outra:


(...)
Munido apenas do seu equipamento fotográfico, uma mochila e um saco-cama, Koudelka viveu e migrou livremente entre dezenas de acampamentos ciganos durante aproximadamente dez anos. "Tal como as comunidades que fotografou, a vida de Koudelka durante esse período era caracterizada por desalojamento e alienação", refere no seu site a Magnum. "Foi, definitivamente, a sua afinidade com o modo de vida deste grupo que o levou a fotografá-lo e que permitiu que penetrasse na intimidade e vicissitudes da sua vivência de forma inovadora. Koudelka mergulhou de cabeça no projecto e conseguiu um retrato imparcial e honesto de uma comunidade nómada cuja existência tem vindo a ser contestada continuamente através dos tempos."



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e algo que já aqui escrevi - como noutros lugares, após ter lido uma entrevista ao Kusturica: quando lhe perguntam a razão pela qual viveu com os ciganos, durante anos, seguindo os seus trilhos, percebendo, ou tentando, os seus costumes, modo de vida, respondeu algo como:

- queria abrir-lhes uma janela de liberdade.

andei com isto (ainda ando) na cabeça durante muito tempo, até ter chegado a uma provável conclusão que, anos depois, não consegui ainda substituir por outra:

Uma janela abre-se por dentro.