No campo de batalha das ideias, o conceito de género é um pólo de hostilidades e deu origem a uma guerra que em Portugal eclodiu de maneira muito retardada, mas é hoje bem visível. Ela é justamente denominada “guerra do género”. Porque é que há tanta gente que não aceita a substituição da palavra “sexo” pela palavra “género” e faz uma caricatura da teoria do género como pura ideologia, desqualificando-a como instrumento de análise? Uma resposta breve dirá: porque esse neutro que é o género veio pôr em causa um modelo heurístico baseado nas oposições natureza/cultura e biológico/social. Segundo este modelo, o sexo está do lado da natureza e do biológico, enquanto o género está do lado do social e cultural, historicamente construído O triunfo do conceito de género sobre o sexo “natural” significaria uma vontade de submeter a natureza à ideologia e proceder à afirmação totalitária de um artifício. Este pensamento cristalizado não se reconhece a si mesmo como uma ideologia que de facto é. Em suma, é incapaz de perceber que também o sexo nunca teve nada de natural, nem sequer aquele a que nos referimos quando dizemos “fazer sexo”. A natureza tem as costas largas, como é sabido, e vem de longe a tendência para assentar nela os fundamentos de terríveis edifícios humanos. Os mais birrentos opositores do género (capazes de gritar como as crianças: “eu não tenho género, tenho sexo, provo-o já aqui a quem disser o contrário”), geralmente ainda estão numa fase anterior ao século XIX. Ferrenhos essencialistas, não querem aceitar uma dissociação entre os seres sexuados e as qualidades sexuais, isto é, vêem anomalias quando não há correspondência imediata entre as entidades mulher/homem e as qualidades feminino/masculino. E ainda mais dificuldade têm em aceitar que o género permita pensar para além do modelo binário dos dois sexos, mulheres e homens, e para além de dois géneros.E no entanto há boas razões para submeter a teoria do género a alguma crítica. Só que essas razões não são as que os seus detractores, em geral, apresentam. O género é uma abstracção que pode esconder ou mascarar a realidade. Se dizemos “violência de género” estamos a usar uma designação que rasura o facto nada abstracto de se tratar de um tipo de violência exercida quase em exclusivo pelos homens sobre as mulheres. De igual modo, é pouco provável que o conceito de género, neutro como ele é, sirva com eficácia a luta contra a persistente dominação masculina e a discriminação de que as mulheres são vítimas no trabalho e na sociedade. Podemos esperar alguma eficácia na luta que se diz contra a “discriminação de género”? O conceito de género, enquanto instrumento mostra-se aqui muito esquivo. Como alguém disse, o “género” pode ser a árvore conceptual que esconde a floresta das “mulheres” na sua realidade, provocando um efeito contrário ao que era visado, na medida em que reproduz o que ele tinha como objectivo suprimir e esconde o que devia mostrar. A teoria do género veio assim reconfigurar o feminismo de uma maneira muito diferente daquele feminismo que teve o seu auge nos anos 70 do século passado. Não é que fosse ainda actualmente plausível e eficaz um feminismo decalcado do modelo da luta de classes. Mas, na verdade, é fácil perceber que o conceito de género não é facilmente transferível da região onde se constrói um campo de pensamento e se organiza o conhecimento para o plano pragmático. Só que estes argumentos pouco interessam aos detractores da teoria do género, obcecados que estão com as classificações — ideológicas em alto grau — que ditam o que é natural e o que é social.
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04 agosto 2017
cada vez melhor, o Guerreiro, António
11 janeiro 2016
my thoughts exactly
A dura lei da "visibilidade"
Numa crónica de título irónico, Portugal é um país de escritores ricos(PÚBLICO, 3/1/2016), protestava Alexandra Lucas Coelho (ALC) contra o hábito quase generalizado de não remunerar os escritores que “dão o seu tempo a Câmaras, bibliotecas, festivais, centros e demais instituições cada vez mais envolvidas na promoção da literatura”. O tema é pertinente e abrange um horizonte de questões interessantes. Mas para discuti-lo é preciso proceder à análise da condição do trabalho intelectual na nossa época. Se os escritores aceitassem, de modo generalizado, dar o seu tempo e trabalho em troca de nada, apenas para responder a solicitações em nome dos altos interesses da cultura e da literatura, eles acederiam a uma servidão voluntária. Ora, a aparente dádiva que eles consentem fazer, de maneira consciente, integra-se numa lógica do trabalho gratuito que não é o da servidão voluntária, mas está no centro da economia política da promessa. Em rigor, não há gratuitidade nenhuma, já que obtêm uma retribuição fundamental para a engrenagem da máquina produtiva de que fazem parte: a promessa, ou a aposta mascarada de promessa, de que auferem com o serviço prestado mais capital simbólico e esperança de rendimento. Nos termos da promessa, haverá lucros no futuro. O negócio que justifica e sustenta as instituições “envolvidas na promoção da literatura” (segundo o eufemismo de ALC) consiste precisamente em vender futuro, à boa maneira capitalista. A retribuição é feita com uma promessa directa ou indirecta. A promessa indirecta joga-se em torno de uma palavra mágica: “visibilidade”. Oferecer visibilidade, propiciar o aparecimento e a assinatura, exibir e dar a conhecer: são estas as contrapartidas do trabalho e do tempo que os escritores parecem oferecer de maneira gratuita, mas que na verdade são investimentos na intensificação da sua luminosidade e existência. Formuladas na linguagem da economia política da promessa, estas questões parecem muito cruas e não se elevam aos altos desígnios que justificam os veementes protestos de ALC. Mas, intuitivamente, até o mais ingénuo vereador cultural compreendeu tudo. E todos nós, que nos movemos nestas áreas, temos a obrigação de saber que a condição a que estão sujeitos os escritores é exactamente a mesma a que estão sujeitos os outros trabalhadores intelectuais. Se não pudessem recorrer a um enorme volume de trabalho gratuito ou quase gratuito — sempre em nome de uma promessa, da miragem do futuro —, grande parte das universidades, dos jornais e das actividades editoriais seriam obrigados a fechar as portas. E de certeza que o presente protesto da escritora ALC poderia ter sido formulado no tempo e no espaço da jornalista ALC. Mas não foi, e seria uma outra conversa perceber os privilégios imaginários da condição de escritor. Hoje, grande parte dos escritores participa activamente na condição do trabalho intelectual na época neoliberal, mesmo quando o faz com relutância. Essa condição é a do “intelectual de si mesmo”, uma expressão cunhada pelo filósofo italiano Pier Aldo Rovatti. Trata-se da tradução no campo intelectual do refrão neoliberal que convida cada indivíduo a transformar-se em empreendedor de si mesmo (um “Eu, S.A.”). O marketing de si pertence a esta condição e às suas formas de visibilidade. Enquanto o escritor formado pelo modelo modernista repudiava tudo o que se aproximasse dessa condição, o escritor como intelectual de si mesmo tem de estar disponível para o trabalho gratuito em troca de uma promessa de visibilidade. Não pode é aspirar ao melhor dos dois mundos.
________
(conheço mais do que muitos exemplos desta estirpe da ALC)
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08.janeiro.2016,
António Guerreiro,
Público,
suplemento ípsilon
01 setembro 2015
(...) À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, "tudo é possível". Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica - à política da morte - dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. (...) A imensa bibliografia sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, tanto os testemunhos dos sobreviventes como as descrições e análises historiográficas, mostraram que uma biopolítica humanitária, como aquela que se tenta difundir na projecção pública dos campos actuais, também esteve presente nos campos de retenção nazis, antes da instauração dos campos de extermínio.(...)
02 janeiro 2015
ao contrário da orientação sexual, a atribuição de um prémio pressupõe uma escolha: detenhamo-nos
(...)
É fácil perceber a escolha: um banqueiro que assume a sua homossexualidade ao mais alto nível é visto como um exemplo. Mas exemplo de quê e para quem? Para quem aspira chegar a banqueiro, para quem deseja mas não ousou assumir a sua homossexualidade, ou para quem acha que não se importaria nada de dizer ao mundo que é homossexual se um dia chegasse a banqueiro, em Londres? Um operário da construção civil que fizesse, na sua aldeia, perante os seus conterrâneos, exactamente o mesmo que fez o banqueiro António Simões, seria sempre um exemplo de muito maior coragem e aquele que importaria de facto mostrar. Não são obviamente os banqueiros em Londres quem mais sofre — se é que sofrem alguma coisa — pela discriminação baseada na orientação sexual. Só que o gesto de um simples operário não tem poder nem dignidade para ser amplificado. E dificilmente as suas palavras iriam soar bem na cerimónia.
(...)
___
(dedicado a todos os amigos e amigas das minhas filhas que nem junto dos pais podem assumir um namoro)
É fácil perceber a escolha: um banqueiro que assume a sua homossexualidade ao mais alto nível é visto como um exemplo. Mas exemplo de quê e para quem? Para quem aspira chegar a banqueiro, para quem deseja mas não ousou assumir a sua homossexualidade, ou para quem acha que não se importaria nada de dizer ao mundo que é homossexual se um dia chegasse a banqueiro, em Londres? Um operário da construção civil que fizesse, na sua aldeia, perante os seus conterrâneos, exactamente o mesmo que fez o banqueiro António Simões, seria sempre um exemplo de muito maior coragem e aquele que importaria de facto mostrar. Não são obviamente os banqueiros em Londres quem mais sofre — se é que sofrem alguma coisa — pela discriminação baseada na orientação sexual. Só que o gesto de um simples operário não tem poder nem dignidade para ser amplificado. E dificilmente as suas palavras iriam soar bem na cerimónia.
(...)
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(dedicado a todos os amigos e amigas das minhas filhas que nem junto dos pais podem assumir um namoro)
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02.Janeiro.2015,
António Guerreiro,
Cultura-Ípsilon,
Público
17 novembro 2012
*
- O som também invoca imagens.
(era a mais pura verdade, Ford não filmava cenas ou planos, filmava o filme inteiro que já tinha na cabeça)
E tudo isso sem grande burburinho, como se fosse algo de absolutamente natural. Houve alguma espécie de planeamento nesse percurso?
- Vivemos sob o signo das poupanças.
(a sincronicidade difere da coincidência)
Mas estabeleciam uma relação entre o punk e os blues?
- Há quadras e quadros.
(o necessário para que seja pacífico que música é música e dogma é dogma)
Mas lembro-me bem de que, quando escutei "The Trinity Session" pela primeira vez, com toda aquela rarefacção sonora, os enormes espaços vazios e a Margo pairando sobre tudo aquilo como uma Vénus de Botticelli... aquilo não era country! [risos]
- O Futurismo italiano, decretado por Marinetti, mostrou que um motor a roncar é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
(o programa repete no dia seguinte, mas na quarta-feira o público poderá ainda ouvir, com entrada livre, Pinho Vargas numa apresentação em piano solo)
O sucesso dele surpreendeu-vos?
- No lugar da juventude, está agora a novidade, em lugar dos escritores impregnados dessa força utópica, com um alcance político, que é a metafísica da juventude, temos agora "os novos", que na versão superlativa são "os novíssimos".
(não era a primeira vez: Portugal entrara na sua vida muito antes:)
Ao fim deste tempo todo, o que é o cinema, para si?
- Tu sonhaste, e uma parte do teu sonho colou-se à vida.
(a montagem era uma incómoda formalidade a que minudências técnicas o obrigavam)
A mesma canção nunca é igual para ouvintes diferentes e, por vezes, o ouvido de quem a escuta é mais talentoso do que o cantor ou o próprio autor...
(era a mais pura verdade, Ford não filmava cenas ou planos, filmava o filme inteiro que já tinha na cabeça)
E tudo isso sem grande burburinho, como se fosse algo de absolutamente natural. Houve alguma espécie de planeamento nesse percurso?
- Vivemos sob o signo das poupanças.
(a sincronicidade difere da coincidência)
Mas estabeleciam uma relação entre o punk e os blues?
- Há quadras e quadros.
(o necessário para que seja pacífico que música é música e dogma é dogma)
Mas lembro-me bem de que, quando escutei "The Trinity Session" pela primeira vez, com toda aquela rarefacção sonora, os enormes espaços vazios e a Margo pairando sobre tudo aquilo como uma Vénus de Botticelli... aquilo não era country! [risos]
- O Futurismo italiano, decretado por Marinetti, mostrou que um motor a roncar é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
(o programa repete no dia seguinte, mas na quarta-feira o público poderá ainda ouvir, com entrada livre, Pinho Vargas numa apresentação em piano solo)
O sucesso dele surpreendeu-vos?
- No lugar da juventude, está agora a novidade, em lugar dos escritores impregnados dessa força utópica, com um alcance político, que é a metafísica da juventude, temos agora "os novos", que na versão superlativa são "os novíssimos".
(não era a primeira vez: Portugal entrara na sua vida muito antes:)
Ao fim deste tempo todo, o que é o cinema, para si?
- Tu sonhaste, e uma parte do teu sonho colou-se à vida.
(a montagem era uma incómoda formalidade a que minudências técnicas o obrigavam)
A mesma canção nunca é igual para ouvintes diferentes e, por vezes, o ouvido de quem a escuta é mais talentoso do que o cantor ou o próprio autor...
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