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Pode rir-se em Auschwitz. Podem até tirar-se fotografias. Mas, assim como há riso e riso, há fotografias e fotografias. O Papa a caminhar pelo campo encenando uma solidão grave, rodeado de flashes, cabos, fotógrafos e guarda-costas subtraídos com ciência ao enquadramento, não se ajusta. Auschwitz não é um cenário. Por enquanto, não é um cenário. As fotografias podem ser de bom gosto - um homem só, de vestes brancas a arrastar pelo chão, rosto fechado e cabeça baixa -, mas há momentos em que o bom gosto se torna uma obscenidade. E, assim como o bebé que morreu no Mediterrâneo não era um Nenuco, Auschwitz não é um estúdio em Hollywood. Estamos doentes. Primo Levi soube disso antes de nós.