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Quando os seus filhos eram pequenos também lhes contava histórias?
Contava, então não contava...
E recriava-as na tela?
Não. As histórias que contava às crianças eram diferentes. Não lhes contava as histórias que me inspiravam a pintar, como os contos tradicionais portugueses. Essas não são histórias para crianças. São histórias para adultos. Eu própria nunca as ouvi em criança. Fui lê-las depois. A Fundação Calouste Gulbenkian deu-me uma bolsa para ir estudar para a British Library. Fui para lá ler contos de fadas de todo o mundo. Li as histórias da Itália, da Suiça, de França, que são completamente diferentes, li as histórias de Inglaterra, que não têm interesse nenhum, são todas sobre batalhas e coisas assim, e li as portuguesas, que são as mais extraordinárias.
Mas já as tinha descoberto antes.
Sim. Já tinha comprado os contos do Leite de Vasconcelos.
O que mais a atrai nesses contos?
A crueldade. É verdade, a crueldade. Apesar de o mundo não ser só feito de crueldade, eu sei.
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