18 janeiro 2020

Todas as pequenas vidas numa só.


Tenho umas dez pranchas de desenho com a medida 1.20 x 0.80 m, e não sei o que fazer com elas. O meu desenhar, a minha mão, não tem a consciência de escala tão grande, o que faz com que trabalhe em diversos horizontes para preencher aquelas pranchas. O que torna-o, o trabalho, além de exaustivo, disperso, e, no limite, sem ideia. A ideia é o motor da arte... Gostava muito de me dar com certa arte abstracta, mas não dou. Nem quero dar-me. É uma traição. O meu amor pelas formas tem de ter, condição sine qua non, um certo nível de referência com o concreto e, até, o figurativo. Sem isso, tudo se esboroa. Não posso pesar a arte. E o que eu adoro, no processo criativo, é mesmo fazer chegar a arte à balança. Quando digo «pesar a arte», não se pense na simples ficção do trabalho de descarte e aproveitamento de ideias/realizações, mas é o fazer sentido na e com a minha vida, no que acredito e vou experimentando. Basquiat disse que nada do que ele fazia era fruto do acaso, no sentido de que todas as linhas estavam contadas, até o mínimo desvio-improvisação tinha «casa», tinha referente (ainda que complexo e não-determinado); acredite quem o quiser: uma vida não é assim tão grande que se a possa controlar na totalidade. Mas Basquiat era um obsessivo, não um pato bravo. Por isso, me repito tantas vezes, em linhas de horizonte, arquitecturas, temas obsessivos, estilizo árvores e seres desprovidos de alma. A alma vê e faz aparecer o resto. Mas as pranchas, o que lhes faço?

(Vou retalhar em pedaços pequenos, à medida dos meus delírios.)

3 comentários:

alexandra g. disse...

Finalmente, Diogo, um texto honesto, magnífico :)*

Diogo Almeida disse...

É só um escrito mais controlado, but, thank you. *

alexandra g. disse...

Não me agradeças... faz! :)*