25 março 2019

(sobre os recantos da casa)

Em todas as fotos estão afectos, memórias, como o dragão, que pertence às minhas filhas (por conta do amor por Haku, no filme A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki), o trabalho difícil, cuja técnica desconheço e coloquei numa moldura que a minha irmã não queria (pintei-o de preto e os laranjas e amarelos quentes sobressaíram), a taça Raku, da qual, ali, não se vê a parte de interior laranja, o candeeiro de mesa - existe um outro, em casa da mana, mais bojudo - esculpido pelo meu pai, quando esteve no continente africano, colocado sobre um tronco de figueira que também pintei de negro e lixei até lhe conferir uma patine que suavizou o excesso de negro, o candeeiro de pé alto pelo qual me apaixonei, em Sevilha, e viajou sobre o meu ombro até Coimbra, o esboço para um projecto de quiosque que o meu mano das Belas Artes queria queimar, considerando somente imperfeições técnicas quando tudo o que eu via era beleza, a mulher deitada, que a mana me trouxe de Malta e, por detrás dela, um bloco de betão partido, que também pintei e usamos para colocar pauzinhos para prender o cabelo - elas, as meninas - a caixinha-contentor, com pedaços de louça partida, cristais imperfeitos, uma pedra em forma de baleia, tanta memória, o meu Satchmo, bem acompanhado.

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(tanta memória, momento, episódio, pessoas; eu até desejo livrar-me de novo de mais de metade do que 'povoa' a casa, mas peças existem que jamais conseguirei encaixotar para vender/oferecer a instituições/bancos solidários, etc. Ficarão para as minhas filhas, saberão reparti-las entre si, que eu sei que o meu destino, aquele que cada um de nós escolheu de antemão para si, mesmo sem o ter ainda executado, é viver rodeada de poucos objectos e em casa mais pequena, esta é um gigante que já foi útil e, entretanto, se tornou mais um deambulatório labiríntico 'pejado' disto & daquilo)

7 comentários:

alfa17 disse...

Quis dizer, e digo agora, que tenho encontrado graça em espiar-te os recantos por ti mesma expostos, sobretudo, que neles julgo descobrir intimidade(s). Vieste dizer que sim.

(LK)

alexandra g. disse...

alfa17/(LK),

obrigada pelas palavras, mas tenho alguma dificuldade em ler de quem não mostra nada de si, por palavras ou imagens (o que vai dar no mesmo, mas consigo é tudo um imenso vazio: chegou à depuração absoluta ou está já na bloga, mas undercover, com este nickname?)

alfa17 disse...

Alexandra, sou a ladykina (usei o afinal enigmático LK para identificar-me). "alfa17" é a conta Google, única forma que me permitiu comentar, caso contrário, assinaria ladykina como é hábito.
De resto, pessoalmente, não entendo o chamemos-lhe recato dos outros como afronta, seja na bloga ou em outros locais.

alexandra g. disse...

mas nesta hospedaria podes comentar com a conta Google, que não custa nada escrevinhar Lady Kina... :P

e os recantos de chez-toi?

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(o que fiz, deve-se a duas razões: gosto do que fiz com as meninas, nesta casa - agora estão ambas em casa própria, mesmo que esta seja sempre delas :) - e estou a testar a câmara do smarto, como a minha filha Maria Miguel enunciou, por vias indirectas, em comentário uns postais mais abaixo; não adianta já chamá-la porcelana, ela tb anunciou o nome que tem :D )

alfa17 disse...

Havia compreendido o que agora confirmas ;)


(tem a sua importância às vezes sabermos que o imaginado confere nas realidades)
(tem a sua importância às vezes sabermos que muito do que imaginamos é fantasia)

Manda lá vir mais recantos que ando encantada!
(dos chez-moi quem sabe um dia me dá para isso)

Impontual disse...


Não sei se é atrevido, mas faço-me convidado para um café nesse tronco de figueira pintado de negro e aceito de bom grado a companhia de Lady kina que é também uma belissima decoradora de interiores.

Gaja Maria disse...

Pequenos recantos pejados de memórias e de vida, passada ou nem por isso pois vão perdurar nas mãos de filhas. E gostei de conhecer esses pedaços de vida que mostram um pouco da pessoa que és :)