04 janeiro 2019

Palomar

Pela varanda do sotão, lá ao longe, no fim do jardim, o Senhor Impontual vê Alexandra - L'hôtesse - a andar de devagar em direcção ao canteiro curvando-se sobre as estacas que estoicamente resistem à geada de Janeiro. Tal como o Senhor Impontual, ela está à procura de qualquer coisa e não sabe o que é. Digamos que Alexandra está com todos os seus sentidos alerta, atentamente à procura de uma surpresa. E o Senhor Impontual está à procura das palavras para descrever a curvatura deste céu azul que lhe cai sobre a cabeça. É como se ciclones e anticiclones o tivessem atravessado e o fizessem enfunar, como se a geometria tivesse saído para tomar um chã de alecrim e nunca mais voltasse. Já não há ângulos rectos. Apenas sinuosidades.

1 comentário:

alexandra g. disse...

Soberbo, caí por terra e fiquei com o cabelo cheio de ervas, qual estátua acordando, devagarinho, devagarinho, os dedos regenerando-se, na orelha esquerda, reconstruída, a cartilagem. Um sorriso todo para dentro, fluindo subtilmente pelas vísceras, como música :)