16 novembro 2017
Fractura-mos
A facilidade com que se critica um comportamento como se não houvesse nada à volta dele é um dos dados sociológicos mais importantes que as redes sociais nos têm fornecido, na medida em que aponta para a universalização de um padrão de análise tendencialmente instantâneo, assente num dispositivo filosófico pronto-a-vestir. Hoje, um simples ponto de discórdia entre dois amigos de facebook chega para que um deles retrate o outro por inteiro e o pinte com a cor do que os distingue. Talvez esteja aí, em parte, a razão de eu me ter afastado um pouco deste meio. Visto de fora, o clubismo subjacente às nossas posições torna-se mais nítido. Seja o assunto os incêndios, a guerra dos sexos, a Catalunha, o jantar no Panteão, o SNS, o futebol ou seja o que for, abundam os casos de gente que defende as suas cores e rareiam os de quem debate, com a intenção de pôr à prova, as suas ideias. Como resultado, cresce em previsibilidade o que se perde em riqueza. O caso dos likes é paradigmático: nas questões a que se costuma chamar de fracturantes (mais uma palavra que se tornou irritante pelo uso indiscriminado), o que preside ao like não é, sobretudo, uma avaliação da argumentação, mas sim uma necessidade de autorreforço por parte de quem lá o põe. O que mais se encontra são ideias bem estruturadas, de um lado e de outro de qualquer contenda (infelizmente, não muito de outros lados, porque a tendência de enclausurar os assuntos na lógica “prós e contras” está com passada larga), que ficam privadas de likes, acima ou abaixo de comentários sem nada de relevante, às vezes meras tomadas de partido, ou emoticons, ou desabafos, ou insultos, que os recebem. Curiosamente, portanto, a franja esclarecida das redes sociais é formalista na análise dos comportamentos, ou seja, olha para eles desinserindo-os do que não conhece, da substância específica de cada enredo, e não só os julga como depois define pela bitola deles quem os praticou. Já aí, um paradoxo claro: o formalismo fica na crítica da atitude, que é vista como um todo (não, ou raramente, como uma parte), enquanto a crítica da pessoa se faz pela atitude – o ser submete-se ao estar e este toma a sua forma. Tal confusão potencia, depois, um fenómeno muito contemporâneo, filho da internet, da rapidez da vida, da descartabilidade da memória, da fragmentação dos nexos e, enfim, da erosão da identidade: a pressa com que tanta gente se quer tornar/mostrar virtuosa, moral e culturalmente evoluída, vanguardista, antenada nas causas mais sexy do momento. Ora, como sabemos, isto não é só juntar água. Continuo a acreditar, apesar de demonstrações várias em sentido contrário, na natureza progressiva do ser humano, caminhe ele para onde caminhar. E as mudanças consistentes não se produzem do pé para a mão. O que digo é que ninguém vai apanhar comboio nenhum. Aos 18 anos eu era homofóbico, hoje não sou; era ciumento, hoje não sou; era machista, hoje (apesar de no facebook uma vez ou outra sugerirem isso) não sou. Não sou, entenda-se, na proporção do que o tempo me permitiu trabalhar. A urgência de correspondermos a um modelo estipulado como próprio para consumo urbano prejudica tanto o crescimento da nossa consciência como o adubo químico prejudica o crescimento de uma planta. Temos uma vida para evoluir, convém que o façamos integrando os novos dados no sistema antigo. A gente transcende-se de forma inclusiva, não vai apagar o que existe, vai transformá-lo. Mas o que me parece vislumbrar, hoje, é a emergência de um fenómeno semelhante ao dos novos ricos: onde estes acumulam riqueza que não faria sentido se não a pudessem mostrar, inseguros que continuam da sua validação social como não-pobres, os novos ricos da consciência acumulam juízos de charneira que expõem a todo o momento como quem quer provar perante os outros a sua mundividência de longo alcance. Mais do que isso, como estamos no império do capitalismo e da competição desenfreada, assim que incorporam uma nova perspectiva seja do que for, passam a criticar acerrimamente quem revela ainda não a ter incorporado. É como subir apressadamente uma escada e destruir cada degrau que se vence. Uma corrida estúpida, do meu ponto de vista.
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2 comentários:
um texto inteligente, Filipe :)
Tento falhar cada vez melhor. Beijo...
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