28 agosto 2017

Sim, venho para a festa de 23 de Fevereiro

Em fuga através da serra iluminada, um fumo denso e cinzento como pólvora, qual nevoeiro picando-me a pele. O rosto distorcido, as mãos a tremer incontrolavelmente. De vez em quando o estômago às voltas, oscilando como um pêndulo enlouquecido. Ansiava por parar, deitar-me, vomitar até ao esgotamento, mas as pernas desobedeciam, impelindo-me para diante, pé ante pé, sem parar.
Era decerto uma cena de um filme qualquer, uma invenção. Labaredas vorazes e sangrentas como aquelas apenas se verificam em pesadelos. Certamente bastaria-me acordar e exclamar, aliviado: "nada disto é verdade". Agora o importante é correr de volta à hospedaria, até ao sótão, até à cama, acordar nos braços da almofada e concluir que nada disto acontecera.
Depois, na qualidade de homem com conhecimento do mundo agridoce, continuar a acreditar que as pessoas ainda poderão ter algum auto-controlo e que o mal, a mentira, a inconsequência continuarão a fazer girar o mundo. A não ser que chova.

3 comentários:

Susana Rodrigues disse...

Exatamente. E não 24 de agosto.
:-)

ana disse...

e chove :)

alexandra g. disse...

:)***