22 julho 2016

em choque, que é palavra feita à minha medida, digamos, eléctrica

Uma mãe que entra num café de adolescentes e jovens adultos antes da uma da manhã e desata a gritar ao filho que vá para casa. Que lhe despeja em cima as dez cervejas que estavam a ser utilizadas num jogo colectivo de amigos. Que vai munida de um pau e desata a bater-lhe com ele.

O café, cheio (de amigos dele), em profundo silêncio.

Uma mãe que, por jamais ter sido acarinhada, nunca vi dar um beijo, um abraço, uma palavra doce, aos filhos.

Um marido que, distante destas atitudes, tem sido o pilar de estabilidade da família, o ponto e vírgula na disfuncionalidade.

Dentro de uma semana, serei eu a sugerir-lhe (ao pai), eu, que nem sequer me permito aconselhamentos, sequer a pedido, que sugira ao filho, e lhe pague, o alojamento em casa de colegas estudantes vindos de fora.

Eu não sei como não chorei, como não choro, diante disto, eu, que saí de casa aos 18 anos (ele, tem 21) por ter levado uma bofetada do meu pai (que soube o tremendo erro que cometeu no mesmo instante).

Estou em choque, não imagino um décimo da humilhação que terá sentido, não imagino sequer se alguém tivesse chamado a polícia, que é exactamente o que ela merecia, por agredir um cidadão adulto, publicamente. Por não ter nele visto, por um instante que fosse, o próprio filho.

__________
Por outro lado, não me surpreende. Conheço o estado de choque como a minha exsudação, existe, mas não cheira.

3 comentários:

Susana Rodrigues disse...

Há mães que se esquecem que os filhos não são, nunca foram, propriedade sua. Como diz uma amiga minha, há mães e há mãezinhas.
Dá vontade de chorar, dá.

Diogo C. disse...

A mim, dá-me vontade de rir. É só uma mulher parola.

alexandra g. disse...

Susana,
É pior, acredita, e já não falamos de mães. Existe gente que não superou jamais os seus traumas de infância e, isto é mesmo terrível, fez deles padrão de educação (quando sabemos, perfeitamente, que ninguém educa um filho, aos 21 anos). Mas dá vontade de chorar, sim, e a vila inteira não fala senão desta desta mulher descompensada.

Diogo,
não é uma mulher parola a nível nenhum, conheço-a bem, muito bem. É uma pessoa cheia de raiva por tudo o que lhe foi feito pelos pais, que adquiriu as competências necessárias para lidar com a vida e com um filho e não sabe, não consegue. Enquanto não aprender a lidar com ela, como saberá lidar com o filho?

Rir? Isto está a ser traumático para um conjunto muito alargado de pessoas...